O DESESPERO DOS LOTADORES DE CANDONGUEIROS

Sedrick de Carvalho | Jornalista. Coordenador do Projecto Rádio Angola

Quando tentava chegar em casa ao fim da jornada laboral, entrei no primeiro candongueiro da fila organizada à paragem. Era o primeiro passageiro, não tinha de enfrentar o “emagrece aí”, por isso logo sentei-me confortavelmente no banco junto ao do motorista, à porta, deixando o do meio para quem quisesse sentar naquele lugar desconfortável.

Pouco depois subiram duas pessoas atrás. O carro começava a ter pessoas e logo partiria, para a minha alegria. E quando mais clientes entraram, então o motorista apareceu sorridente e fez um sinal ao seu companheiro cobrador para subir e partirmos.

O som do motor despertou outro jovem que se aproximou e estendeu a mão ao cobrador exigindo pela “contribuição”. Era o lotador. De que contribuição se tratava todos sabiam, mas não compreendiam a razão daquela exigência quando ele não havia, de facto, colaborado na lotação do candongueiro.

Com a certeza de que o lotador não havia lotado a viatura, o cobrador negou-se a dar a “contribuição”, e o seu colega-motorista apoiou-o. Imediatamente instalou-se a comum discussão do “dá o meu dinheiro porque lotei” e o “não há nada para quem não fez nada”. O lotador desiste de tentar sacar o dinheiro do cobrador e vai ao motorista, mas fá-lo esticando o braço pela porta do banco onde me encontrava.

Com o hálito forte destilando álcool, de um whisky em garrafinha que o vi beber, rugia do meu lado para o motorista. Foi nesse instante que decidi interferir, impaciente por ver que alguns passageiros desciam por ordem e medo do lotador que ameaçava “fatigar” o cobrador. E a minha interferência foi categórica: que não se desse nem um kwanza ao indivíduo. Disse porque tinha plena certeza de que o sujeito não havia lotado a viatura, a começar por mim, primeiro passageiro, que cheguei ao candongueiro sem nenhuma indicação, e também porque assisti com curiosidade aos goles que o jovem dava da sua garrafinha sentado sobre um pneu a escassos metros.

O meu encorajamento desviou o alvo. O lotador passou a ameaçar-me directamente. Os seus companheiros também lotadores juntaram-se à confusão exigindo pelo dinheiro. O cobrador e o motorista queriam partir daquela paragem sem os passageiros, excepto eu, e assim não teriam de pagar ao jovem e partiam com os vidros do carro intactos e sem “fatigação” física.

Mas o lotador insistia em ameaçar-me. Havia dois agentes da polícia a uns dez metros durante toda aquela algazarra. Chamei por eles e disse poucas palavras mas suficientes para um dos agentes dar um pontapé levezinho nas nádegas do lotador, como se fossem amigos brincando, e mandar que parasse de nos incomodar, e o lotador respondeu “ok, chefe”. E assim o motorista colocou o carro em marcha, apenas comigo como passageiro. Ao longo do trajecto disse ao motorista que eles, taxistas, são também culpados pelo estado em que chegou esse sistema de lotação.

Em Junho o Jornal de Angola trouxe à capa o “trabalho de ´lotador´ de táxi” como atracção para “muitos jovens”, ao qual dedicou quase uma página do diário estatal a destacar, primeiro, a importância desse trabalho no sustento de famílias e formação escolar e, depois, uma pequena abordagem feita por um sociólogo.

O cerne do surgimento desta actividade reside no elevado índice de desemprego. É a mesma na base da crescente taxa de criminalidade. E é aqui onde o lotador entra também nas estáticas do crime em Luanda.

Os lotadores são, a maioria, extorsionários, como no caso referido, e, sendo a extorsão uma típica acção criminosa, eles aplicam as características dessa prática: obrigam, ameaçam, destroem, agridem, e até ferem.

Denominando as paragens de candongueiros por “nossa placa”, os lotadores passaram a exigir aos prestadores de serviços de transportes de passageiros pagamentos pela lotação dos veículos, independentemente de ter lotado o carro, o que ocorre sobretudo em horas de ponta, quando os passageiros menos precisam de indicação.

O não pagamento do valor exigido, que varia mediante o preço cobrado ao passageiro – se a viagem custar 200 Kwanzas então deve dar 200 ao lotador -, equivale a vidros partidos, pneus furados, espancamento, preferencialmente do cobrador, ao ponto de ser ferido e ficar sem o dinheiro todo que tiver. Uma mistura de actos que fazem a extorsão.

O segundo momento é o pagamento duma “contribuição” pela utilização da “placa”. Os lotadores seniores, digamos assim, são os responsáveis por mais essa imposição. Como justificação alegam que cuidam da “limpeza e organização da placa”. As paragens nunca estão limpas e a pouca organização em algumas é feita pelos próprios taxistas, que se colocam em fila por ordem de chegada.

Nesse esquema de extorsão montado por jovens está subjacente o desespero na luta diária pela sobrevivência. E é lamentável a tónica entusiasmada que o Jornal de Angola deu ao atractivo “trabalho de lotador de táxi”, como que a enfatizar um programa do governo para empregar a juventude, como as caixas de engraxar sapatos distribuídas pelo MPLA na campanha eleitoral.

A postura da Polícia Nacional face aos lotadores é outro aspecto do processo extorsionário. Em quase todas as paragens encontramos agentes da polícia, mas não interferem a favor dos extorquidos.

Esta instituição inventou a “Operação Movimento” que resultou na detenção de mais de 800 lotadores em Julho. Ainda assim os lotadores continuam nas “placas”, e o porta-voz da polícia em Luanda apontou que a “falta de uma boa cooperação entre a Polícia Nacional e os órgãos de Justiça tem contribuído negativamente na solução dos dois problemas”.

O Ministério Público tem colocado em liberdade os jovens por falta de elementos incriminatórios, e a polícia lamenta. Ora, o MP age bem, pois este é um problema que não se resolve com cadeias e condenações, mas com a criação de postos de trabalho.

O desespero dos lotadores reflecte o desespero da juventude desempregada e sub-empregada, e caracteriza o contínuo agravamento da insegurança pública. Enquanto não aparecem os postos de trabalho, convém aos taxistas – que começa a ter uma associação forte – estabelecerem limites aos lotadores mediante uma parceria informal e funcional, sem extorsão.

Fonte: Jornal Folha 8

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