MUKANDA* A JOÃO LOURENÇO

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Sr. Presidente da República,

Acompanhei o grande entusiasmo popular que as suas promessas eleitorais geraram. Logo após a sua tomada de posse como presidente, o senhor tornou-se a imagem da esperança em Angola. Sem dúvida, conseguiu recuperar a esperança que José Eduardo dos Santos, com o inquestionável apoio do MPLA, havia enterrado bem fundo, de modo que a corrupção, a desordem, a repressão, a impunidade, o abuso de autoridade e a falta de dignidade dos angolanos servissem de esteio à governação.

Em poucos dias, o senhor conseguiu transformar a falta de legitimidade política –enquanto presidente eleito sem apuramento de resultados em 15 das 18 províncias – em popularidade messiânica. O povo acreditou em si como nunca antes acreditara num líder.

Não falemos mais destas tristes eleições de 23 de Agosto de 2017. O povo, “sofredor e generoso”, adaptando o hino nacional à realidade, concedeu-lhe – por empréstimo temporário – toda a popularidade de que necessitava para ser o presidente de Angola, não só da parte do MPLA e dos oportunistas, mas da generalidade dos cidadãos. O mundo inteiro rendeu-se às suas promessas de combate à corrupção e de reforma do Estado.

Por isso lhe pergunto agora: o que se passa?

Quanto mais o presidente nomeia, mais a sociedade fica com a impressão de que o senhor é a continuação de José Eduardo dos Santos e de todo o mal que este infligiu aos angolanos. É isso que o actual Orçamento Geral do Estado denuncia. Trata-se de mais do mesmo: despreza a educação e a saúde – logo, despreza o povo.

Mas o senhor tem uma qualidade fundamental para ser bem-sucedido na sua missão como presidente. Não é indiferente ao sofrimento e à miséria do povo, como sempre o foi José Eduardo dos Santos.

Em sua defesa, corre a teoria de que o senhor presidente está a nomear tantos caducos, ineptos e corruptos do MPLA porque precisa do apoio deles para se tornar presidente do MPLA. Ora! Se João Lourenço já é presidente da República, porquê lutar para ser presidente do MPLA?

Segundo essa teoria (a única que de momento lhe é favorável em círculos críticos), o senhor enfrenta dificuldades para se afirmar dentro do MPLA, do qual é vice-presidente. E, segundo argumentos também a seu favor, precisa de controlar o partido para poder governar.

Eu, como muitos leitores, discordo. Passo a explicar porquê.

Primeiro, só um ditador precisa de controlar simultaneamente a República e o partido no poder para governar bem, até porque a Constituição angolana garante poderes imperiais ao presidente.

Segundo, o modelo de partido único do MPLA nunca funcionou para o bem dos angolanos, apenas beneficiou a estrutura dirigente. Os esforços cosméticos de adaptação do modelo de partido único à democracia e à economia de mercado levaram à privatização do Estado pelos mesmos dirigentes e seus agentes. O MPLA levou Angola ao estado actual de falência.

Será inteligente da sua parte, camarada João Lourenço, cometer os mesmos erros do passado?

O MPLA é para si mais importante do que todo o apoio popular nunca antes concedido, sem guerra nem repressão, a um presidente? O camarada João Lourenço não quer fazer história?

Quem tem o povo e o exército do seu lado pode temer o quê? Um ex-presidente José Eduardo dos Santos, doente, decrépito e totalmente desacreditado? Ou será que o senhor presidente não percebe que tem tudo nas suas mãos?

Diz-se que o presidente do MPLA, José Eduardo dos Santos, tem o poder de bloquear as suas iniciativas na Assembleia Nacional, através do grupo parlamentar. Pura falácia.

A Assembleia Nacional é pouco mais do que um autódromo, um lugar para distribuir viaturas de luxo entre políticos inchados de vaidade, como Vicente Pinto de Andrade. Segundo este representante do MPLA, é indigno, é uma “chacota” que um deputado vá ao parlamento numa viatura Hyundai Accent, mas já quanto aos que morrem à fome por causa da má governação nada há a dizer. No parlamento promove-se a dignidade dos “Lexus”, as viaturas de luxo atribuídas aos senhores deputados.

Imaginemos que o MPLA tente impedir ou boicotar publicamente, através da Assembleia Nacional, iniciativas e medidas suas tomadas para o bem do povo e da nação? Como enfrentaria o presidente e o povo unidos?

Portanto, pergunto-lhe: terá o senhor medo ou vergonha de ser um bom presidente? Será que lhe falta coragem política ou astúcia para lidar com as forças destrutivas dentro do seu próprio partido?

Também lhe posso dizer que não deve temer pela informação eventualmente comprometedora que José Eduardo dos Santos ou outros detenham sobre si. As pessoas não querem um presidente santo, querem um líder que as retire do buraco em que se encontram, desesperadas.

Será contraproducente, senão mesmo impossível, privilegiar a acomodação dos seus pares no MPLA e tratar o povo com meras promessas e discursos cheios de nada.

Acredito que o senhor presidente saberá encontrar, no fundo da sua consciência, a bondade necessária para buscar os conselhos relevantes no sentido de fazer uma escolha clara e inadiável: primeiro os angolanos, depois o MPLA.

Também acredito que o senhor queira inscrever o seu nome nos murais da posteridade como um cidadão de bom senso, que aproveitou o extraordinário apoio do seu povo para promover o desenvolvimento humano e o progresso da sua nação. Não é pedir muito.

Continuo a acreditar em si e na sua coragem. Mas, nas ruas, a impaciência é cada vez maior, e o senhor não tem muito tempo para escolher entre governar com os angolanos ou afundar-se sob a bandeira do MPLA.

*Mukanda é uma carta na língua kimbundu.

Fonte: Maka Angola

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