A TRAGÉDIA DO JORNALISMO ANGOLANO

Elias Muhongo

Por acaso, começo a acreditar e constar que, o problema mais grave dos jornalistas dos órgãos públicos não está nos conteúdos publicados ou nas opiniões que defendem. Afinal, a liberdade de expressão, atendidos alguns pressupostos mínimos de respeito à dignidade humana, deve ser protegida. O problema também não está nos argumentos utilizados pelos seus articulistas, eivados de lugares comuns e irracionalidades, quase sempre sem nenhum rigor formal e cujas conclusões raramente derivam das premissas. Tampouco é tão problemática a falta de embasamento técnico demonstrado em matérias sobre assuntos mais complexos, como economia, meio ambiente, administração, direito e, agora, a contabilidade pública.

O nível de conhecimento apresentado nessas áreas está em conformidade com o pensamento médio de grande parte da sociedade angolana com acesso ao sistema de educação formal e que se abastece de informações periodicamente por meio dos jornais/revistas de grande circulação e dos telejornais. Até aí nada demais. Mesmo porque o jornalismo não cria conhecimento novo mas apenas reproduz, em doses diárias e homeopáticas, e com superficialidade, o estado da arte dos saberes dominantes produzidos por uma boa parte da privada e pouco ao público.

E onde estaria o problema então? O cerne do problema parece estar no fato de seus articulistas acreditarem apaixonadamente no que escrevem e falam, ainda que isso implique altas doses de autoengano. Os conteúdos expressam aquilo que eles de fato pensam. Pelo menos na maior parte das vezes, não se trata de canalhice, de conspiração, nada disso. Os textos e os discursos representam a mais completa tradução da visão de mundo de seus autores. Pessoas comuns, “gente como a gente”, que buscam um lugar ao sol, um espaço digno em seus campos de actuação profissional, lutam por bons salários, crescimento na carreira, consagração e reconhecimento entre os pares.

E quanto mais acreditam no que defendem, mais úteis são para os veículos dos quais fazem parte. Estes sim os grandes beneficiários do sistema que buscam perpetuar. As grandes corporações da mídia são parte da infraestrutura (economia) e da superestrutura (ideologia). Talvez seja o sector em que ambas as características, infraestrutura e superestrutura, estejam mais claramente presentes. Portanto, além de ser um negócio como outro qualquer, que depende de vendas e lucro, é também parte interessada no que publica.

Mas, empresas jornalísticas possuem o álibi da objectividade e da neutralidade jornalística, o que mascara, como em nenhum outro sector, o fato de serem agentes autorizados para falar dos próprios interesses. Imagine se a indústria do tabaco fosse o agente autorizado para formar opinião sobre os efeitos do vício de fumar? É o que acontece com a grande mídia. E, no fundo, os profissionais da mídia são tão dominados quanto aqueles que pretendem dominar. São soldados obedientes, esforçados, que exercem com bastante competência seus papéis de conservadores dos sistemas de dominação a que pertencem. Por outro lado, o campo jornalístico é um campo cada vez mais precário para quem nele actua. Seus porta-vozes também são, numa certa medida, vítimas de seus próprios discursos. São profissionais cada vez mais terceirizados, cada vez mais mal remunerados, cada vez mais explorados e precarizados pelas gigantes do sector de comunicações. Vivem sujeitos a reestruturações, reengenharias e os famosos “passaralhos”. É certo que alguns profissionais tornam-se dominantes no campo e se confundem com a própria força económica do sector. É o caso das âncoras, dos editores-chefes e de todos os mandachuvas do campo. Mas são minoria. E ainda assim, de tempos em tempos, são trocados, demitidos, substituídos, reciclados e reduzidos a uma quase caricatura do que um dia representaram. No fim, somos todos descartáveis. Essa é a grande tragédia. O grande capital usa todos. E tudo descarta. A rigor, nenhum país é inocente diante de um exame moral, social ou geopolítico. Países são uma grande selvageria dividida por fronteiras. Violentos e injustos, cada qual à sua maneira. Começo mesmo concordar com os meus professores UF e FH.

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