A QUEDA DOS SANTOS E A REARTICULAÇÃO DO MPLA

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O greco-francês Konstantinos Gavras foi assertivo na crítica cinematográfica ao capitalismo no filme «O Capital», estreado em 2012. No filme, Gravas mostra-nos um executivo recém-nomeado a CEO do fictício maior banco da Europa. A nomeação, entretanto, tem como propósito a promoção duma marioneta às mãos dos poderosos do capitalismo selvagem.

Por Sedrick de Carvalho | Fonte: Folha 8

Surpreendentemente e num curto prazo, o promovido torna-se um gestor sem escrúpulos que consegue astutamente dominar os poderosos que o queriam instrumentalizar.

É este o filme que me vem sempre à mente quando ocorre uma exoneração e nomeação levada a cabo por João Lourenço e que esta semana se destacou ao demitir Isabel dos Santos do cargo de presidente do conselho de administração da petrolífera Sonangol, onde estava ancorada por nomeação arrogante do seu pai-ditador José Eduardo dos Santos em 2016.

Mas sobre a tão esperada exoneração já tanto se falou. Porém, vamos com este artigo tentar perceber as razões de tal ousadia numa altura em que, estatutariamente, João Lourenço ainda deve obediência ao seu chefe partidário José Eduardo dos Santos, este que durante 38 anos dirigiu a delapidação económica, política e social do país a bel-prazer.

O protagonista do referido filme começa por ganhar a simpatia e apoio dos mais de 100 mil empregados espalhados em 49 países com uma medida inteligente: um questionário onde constam questões como o que impede o trabalhador de progredir na empresa, se são aspectos materiais ou os seus chefes, e por ai adiante. Claramente é desejo de qualquer trabalhador poder dizer sem receio o que acha do tratamento que recebe do seu superior hierárquico imediato.

O CEO, com o fundamento da renovação da energia colectiva do banco, diz mesmo que chegou a hora de acabar com os clãs e chefes indignos, despóticos, que assediam moral e sexualmente, e que humilham. No instante que fazia esse anúncio tinha em mente despedir dez mil funcionários e não os cinco mil que os donos do banco desejavam.

Por um lado os accionistas do banco não o podiam demitir porque seria um ícone da alta finança, e por outro ele mais do que satisfazia os interesses dos mesmos porque estava prestes a começar demissões em massa que resultaria num aumento de 26 por cento das acções do banco, que significaria mais dinheiro nos bolsos dos accionistas. Com esta acção, o CEO consegue renegociar os termos da sua comissão por cada demissão. Ou seja, num ápice torna-se poderoso junto dos poderosos.

Essa trama decorre no mundo financeiro, mas, como disse, lembra-me bastante o que João Lourenço tem feito, pois está a conseguir, num prazo curtíssimo, ter poder e contrapor o esmagador poder de José Eduardo. Essa incursão não é nova no seio do MPLA, pois o antecessor rapidamente tomou as rédeas do mesmo partido e do país pouco depois de chegar ao poder em 1979. A novidade aqui é o facto de o sucedido permanecer em vida e teimar em ensombrar o sucessor. Mas não é novidade noutras partes do mundo, e o exemplo mais próximo é a difícil coabitação que existiu entre Filipe Nyusi e Armando Guebuza em Moçambique – onde João Lourenço classificou de malandros os opositores nos dois países.

Qual a fonte do poder de João Lourenço, afinal? Desconhecemos a resposta concreta, mas podemos apontar uma que achamos ser a mais próxima: a necessidade de sobrevivência do MPLA.

Como sabemos, os resultados eleitorais que têm sido apresentados são fraudulentos. Mas eles revelam também que o MPLA tem consciência do grau de impopularidade ao ponto de não conseguir atribuir-se tantas percentagens. Daí que vimos a percentagem baixar de 81,64%, em 2008, para 61,07% em 2017. Esse é o sino do declínio que nem a fraude conseguiu silenciar. Assim, o MPLA encontra-se entre a espada e a parede. Nesta situação, é a sobrevivência do MPLA que está em causa perante o crescente foco de contestação e cônscio de que os ventos mundiais não estão para protecção de regimes ditatoriais, como agora percebe Robert Mugabe no Zimbabwe.

José Eduardo dos Santos entregou a sua cabeça talvez por acreditar que será reconhecido como o arquitecto da paz, visionário, presidente emérito e quejandos. Porém, antes mesmo de abandonar a presidência começou a ser apunhalado por muitos que durante anos se mantiveram fiéis ao culto partidário de sua glorificação, e assim vimos personalidades como Irene Neto e o actual ministro João Melo a criticarem a tentativa de JES outorgar-se o título de presidente emérito.

A imolação para a sobrevivência do partido não foi apenas do chefe da ditadura. Toda a família do ditador começou a ser publicamente humilhada com exonerações e atestados de incompetência. E os que defenderam o nepotismo presidencial são os mesmos que agora festejam exacerbadamente as exonerações em entrevistas televisivas.

Porém, há ainda a seguinte questão: será que os Santos têm consciência da necessidade de sobrevivência do MPLA em detrimento da imagem da família e por isso participam na salvação? Parece que não. A reacção de Welwitchia dos Santos «Tchizé», também “lourencialmente exonerada” da gestão do segundo canal estatal e o internacional de televisão, assim indica. A filha do José não está animada e critica o que chama de achincalhamento público à sua família feito pelo presidente Lourenço.

E acrescenta: “Sei que estou a apanhar por tabela em fogo cruzado não sei vindo de onde… nem contra quem…”.

A mais desinibida do clã Santos sonha ainda que “um dia um PR de Angola me outorgará um certificado de mérito, uma comenda pelos serviços à pátria, pela minha contribuição para a comunicação social angolana e pelo papel fundamental na criação e lançamento da mais internacional empresa pública angolana”.

Ao contrário de Tchizé que lamenta exclusivamente palas redes sociais, Isabel fez questão de emitir um comunicado de seis páginas onde pavoneia, dentre outras coisas, que a sua administração aumentou a produção do gás em 238% e o exportou pela primeira vez – entretanto o preço do gás não baixou ao longo do seu reinado. Essa necessidade de vangloriar-se no momento da partida é também sintomática de que realmente os Santos estão a ser queimados em hasta pública, parafraseando a irmã.

Mas os Santos não podiam esperar tratamento diferente. E como é preciso uma depuração interna para passar a mensagem de que o MPLA é capaz de governar como anseia a população, João Lourenço e pares não hesitam nas exonerações que tanto alegram a alma despedaçada dum povo relegado ao esquecimento desde a independência do país.

Na senda das exonerações, cremos que, caso teime, provavelmente José Eduardo será forçado a abandonar a presidência do MPLA, como Guebuza, e isto poderá acontecer com estardalhaço para transmitir a ideia de que a renovação do partido é completa e assim o governo atingir os píncaros da legitimidade interna e internacional.

Dissemos “passar a mensagem” porque é apenas isto que nos parece. Desde a organização inconstitucional das eleições e a fraude no resultado, a falta de declaração de bens do presidente e auxiliares, a composição do governo onde constam reconhecidos reaccionários, bem como a promoção de bajuladores, actos antidemocráticos, tudo isto nos dá a certeza de que o MPLA mantém-se o mesmo. E não seria diferente, pois os seus membros são os mesmos que delapidaram o país.

Dito isto, reiteramos que estamos perante uma rearticulação do MPLA que visa simplesmente manter-se no poder eternamente. Mas esta manobra está a ser gigantesca e igualmente o nível de expectativa da população que não vive de exonerações e nomeações, e que, portanto, nesse frenesi todo ainda não encontrou medicamentos e luvas nos hospitais, continua a ser forçado a pagar pelos serviços públicos oficialmente gratuitos, forçado pelo agente de trânsito a dar a maldita “gasosa”, e a debater-se diariamente com os excessivos preços dos produtos alimentares.

Tal como é altíssima a expectativa, a onda de contestação deverá ser proporcional caso estas medidas não tenham reflexo positivo na sociedade a curto prazo.